Apresentação do projeto

Duas ordens de problemas — ambas sem precedentes na história da humanidade — alimentam o debate atual. A primeira tem a ver com a aceleração do desenvolvimento científico e tecnológico e com a forma como a instituição universitária deve-se estruturar para dar conta desse desafio. Ultrapassamos a época da multidisciplinaridade e da interdisciplinaridade para atingirmos a época da transdisciplinaridade, que significa uma nova relação entre os conhecimentos. A transdisciplinaridade não elimina nem a disciplina nem os enfoques multi e interdisciplinares, mas os transforma, subordina e reorganiza.

A segunda ordem de problemas tem a ver com a expansão sem precedentes que a Educação Superior alcança em todo o mundo, principalmente, mas não apenas, nos países do centro capitalista. Em vários países da América, da Europa e da Ásia, o percentual de jovens, com idade entre 18 e 24 anos, que cursam instituições de Educação Superior, já ultrapassou a casa dos 60%. Tornando-se um direito universal, a que todos podem ter acesso, a universidade já não pode pensar-se como um mecanismo de produção ou reprodução de elites.

Da convergência desses dois processos torna-se imperioso, para a instituição universitária, rediscutir-se e reconceituar-se. Temas que vão da natureza do ensino ministrado às demandas por qualificação profissional, da estrutura departamental à flexibilização curricular estão na ordem do dia em todos os países do mundo.

Não poderia ser diferente no Brasil. Aqui, contudo, o impacto desses processos se dá em uma estrutura de Educação Superior e em um sistema universitário que se caracteriza por ser tardio, carente de autonomia, precarizado pela insuficiência de recursos, desarticulado do sistema produtivo, voltado quase que exclusivamente para a formação profissional, fragmentado e elitista, à medida em que apenas 10% dos jovens com idade entre 18 e 24 anos têm acesso ao Ensino Superior. Na verdade, todas essas características não passam de faces de uma mesma moeda.

A UFRJ não foge à regra; ao contrário, talvez seja seu mais representativo e exitoso exemplo. A história da primeira universidade brasileira teve início em 07 de setembro de 1920, quando as escolas de Medicina, Politécnica e de Direito foram reunidas, por decreto, sob o nome de Universidade do Rio de Janeiro. Reformulações e ampliações posteriores a renomearam como Universidade do Brasil, e, depois, como Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas não conseguiram superar o caráter fragmentário presente na sua formação e cuja permanência ainda hoje pode ser percebida.

Sua trajetória, no entanto, ainda que padecesse da ausência de uma perspectiva de integração mais forte, permitiu que ela se desenvolvesse, de modo bastante significativo, em várias áreas de atuação e conseguisse consolidar forte prestígio através da qualidade do seu trabalho nos campos das Ciências, da Tecnologia, das Artes e da Cultura. Sua comprovada capacidade de atrair talentos e agregar conhecimentos permite-lhe hoje desfrutar de incontestável reconhecimento quanto à qualidade do seu desempenho na formação de recursos humanos graduados e pós-graduados, ao importante papel no desenvolvimento de pesquisas científicas e tecnológicas de fronteira e a uma substantiva produção cultural e artística de elevado padrão.

 

O momento por que passa o país atualmente encerra graves dificuldades e contradições. Mesmo no âmbito da Educação Superior, em que avanços podem ser registrados — com a recuperação parcial dos orçamentos, a criação de condições para o diálogo amplo e aberto e a retomada do protagonismo do sistema público — ainda persistem vários dos obstáculos e entraves que dificultaram o desenvolvimento das Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes). Mesmo assim, o acúmulo de iniciativas por parte do Governo Federal cria uma oportunidade sem precedentes para que a UFRJ possa avaliar-se, profunda e radicalmente, e propor, sem capitulação, mas também sem sectarismo, as transformações que lhe são exigidas. A UFRJ pretende superar o quadro de limitações que lhe foi imposto e responder ao desafio colocado pela sociedade contemporânea com um projeto de transformação, capaz de prepará-la para um futuro marcado pela transdisciplinaridade e pela universalização da Educação Superior.

O anteprojeto do Programa de Reestruturação e Expansão da UFRJ (PRE) aqui formulado reconhece as possibilidades e potencialidades existentes no atual estágio da UFRJ bem como as oportunidades que se abrem, propondo por isso as linhas de desenvolvimento necessárias para sua qualificação e organizando-a para as demandas que o país já lhe está colocando.

Com o intuito de abrir mais um espaço de divulgação, reflexão, diálogo e proposição acerca do tema, essa página foi criada. Aqui, qualquer cidadão e membro da comunidade acadêmica poderá opinar, debater e expressar suas idéias. É esse o nosso propósito. Participe!